Peça “O Deus de Spinoza” traz reflexões sobre ética e liberdade de expressão ao palco do Enaje

Escrita pelo ex-presidente da AMB Régis de Oliveira, a obra é sucesso de crítica e público.
Amsterdam, 1656. Um conselho de rabinos se reúne para julgar Baruch de Spinoza por suas obras, que contestavam os dogmas expressos na Torá. Diante do público, o filósofo não renuncia às suas ideias e é sentenciado ao Herem, a exclusão total da comunidade judaica.
“A partir deste momento, o senhor não existe mais para a comunidade judaica de Amsterdam, nem para a comunidade judaica em qualquer outra parte do mundo. Esta é sua condenação”, diz um dos juízes. “Qualquer pessoa que dirigir a palavra ao senhor também será amaldiçoada”, completa outro rabino.
Nocivo, ímpio e profano são alguns dos adjetivos usados contra Spinoza, que ousou expressar ideias que, ainda hoje, soam radicais. “Deus é a natureza”, grita o filósofo, interpretado por Bruno Perillo, na peça apresentada nesta sexta-feira (15), no auditório do Memorial da América Latina, encerrando a programação do segundo dia do Enaje.
Assinado pelo ex-presidente da AMB Régis de Oliveira, o texto está em cena desde 2022 e tornou-se um sucesso de público e crítica. A peça apresenta em detalhes o pensamento do filósofo holandês, cujo estudo tem se tornado cada vez mais popular no Brasil e no mundo. Um de seus admiradores foi o físico Albert Einstein, que, ao ser questionado sobre suas crenças, afirmou: “Acredito no Deus de Spinoza”.
De acordo com Régis de Oliveira, a filosofia do holandês foi muito além da contestação de doutrinas religiosas e antecipou debates sobre a República e a Democracia modernas. “A discussão filosófica de Spinoza não trata apenas de sua percepção sobre Deus, mas também de Justiça, Direito Natural, o rigor das leis e as garantias do Estado”, destacou o dramaturgo.

Esses temas são abordados ao longo da apresentação, que retrata um debate febril entre Spinoza e seu amigo Jan Rieuwertsz, interpretado por Juliano Dip. No diálogo travado durante o isolamento, Spinoza dispara ideias que culminaram em sua obra máxima, Ética, publicada em 1667.
“O conflito entre as paixões e a razão é central na obra dele. Para Spinoza, não é a razão que decide; quem decide são os afetos”, explicou Régis de Oliveira.
Em contraste com a densidade do texto, a adaptação do diretor Luiz Amorim, que também interpreta um dos juízes rabinos, aposta na ação e é pontuada por uma trilha sonora que vai de músicas medievais sefarditas até o rock, interpretada por músicos no palco.

Ao final, o ex-presidente da AMB agradeceu o trabalho do elenco, aplaudido de pé pelos magistrados presentes no Enaje. “A obra de criação não é fácil, mas mais difícil ainda é ter que representar aquilo que o autor criou. Estão todos de parabéns.”
Henrique Bolgue (Ascom/AMB)




