Obra-prima do autor retratou mudanças radicais da sociedade russa no final do século XIX

Um marco da literatura russa, “Pais e Filhos” é uma obra que aborda temas ainda relevantes na nossa sociedade, mesmo tendo sido lançado em 1862. Nascido em família nobre e rica, numa vasta propriedade rural na parte central da Rússia, Ivan Turguêniev viajou o mundo, permitindo que trouxesse novas ideias para a sua literatura.

A história acompanha o jovem estudante Arkádi Nikolaitch, que retorna para casa acompanhado de um amigo e mentor, que causa imenso desgosto ao seu pai e seu tio. O companheiro, Bazárov, despreza qualquer autoridade, é antissocial e se proclama niilista.

Nesta obra-prima, Turguêniev foi criticado pela sua representação da geração jovem, desconectada das tradições russas.

A obra foi comentada na reunião do Clube de Leitura da AMB pela professora da USP Elena Vássina, que já havia participado do encontro sobre os livros "Crime e Castigo" e "Maldito seja Dostoiévski”.

Segundo a pesquisadora, o romance foi influente na decisão de Alexandre II de abolir a servidão na Rússia. “O Czar leu Turguêniev, gostou muito, e todos dizem que a leitura influenciou o governo dele na reforma”.

Ela explicou que a obra foi publicada em uma época de grandes mudanças sociais. “É

um período de troca de valores muito radical. Todas as revelações positivistas, científicas, fisiológicas, espantaram Turguêniev e o faziam tremer”, disse.

Isso se reflete no tema central da obra, a relação entre o filho, o amigo Bazárov e o pai. “É o eterno tema dos problemas entre gerações. Na arte, cada nova corrente estética nega a corrente anterior”, avaliou.

A discussão contou com a participação ativa de vários Magistrados, que discutiram as linhas filosóficas abordadas no livro. Para o Desembargador Franco Cocuzza (TJSP), o livro apresenta contradições entre as ações dos personagens e suas ideologias. A Magistrada Daniela Ninno (TJSP) também elogiou a exposição da professora, especialmente ao situar a obra na história russa.

O Desembargador Jorge Frias (TJMS) apresentou a sua visão sobre a relação entre os pais e filhos únicos, como o caso do livro, e disse que a discussão no Clube abriu os seus olhos para a complexidade da obra. “Preciso reler o livro depois de tudo que a senhora Vássina explicou. Foi escrito em uma época de muita alteração social, de disputa entre as classes”, afirmou.

A próxima obra que será discutida pelo Clube será “Entre amigos”, do israelense Amós Oz.

Assista ao último encontro:

Henrique Bolgue (Ascom/AMB) 

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