Caminhada Negra AMB 2025 une dez capitais em um gesto de memória e justiça

A iniciativa da Diretoria de Igualdade Racial percorre o país para celebrar a presença negra que construiu cidades, ergueu culturas e segue sustentando o ideal de igualdade no Brasil
A Caminhada Negra AMB 2025 nasce do desejo de fazer a Justiça se mover sobre o chão que a população negra construiu, lavrou, rezou e resistiu. Promovida pela Diretoria de Igualdade Racial da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), a ação ocorre em dez capitais brasileiras, reunindo 274 pessoas que caminham, cada uma, por algo que ultrapassa o próprio corpo: caminham pela história.
“A Caminhada Negra é um convite à consciência. Em cada cidade, revisitamos a presença negra que construiu o Brasil, mas que, por muito tempo, foi esquecida nos livros e nos espaços de poder. Conseguimos oportunizar este passeio turístico, histórico e cultural do norte ao sul do Brasil, do Amapá ao Paraná, e inaugurar o roteiro em 3 capitais que ainda não tinham recebido o evento, Palmas, João Pessoa e Vitória, trazendo narrativas de personalidades negras muitas vezes silenciadas. É dever da magistratura reconhecer essa história e fazer dela um compromisso permanente de igualdade e de reparação. Caminhar é também um ato de Justiça.”disse o juiz Marco Adriano Ramos Fonseca, diretor de Igualdade Racial da AMB e presidente da AMMA.
O passeio percorreu a história construída pelas mãos da população negra — uma história cuja resistência sobrevive ao que a escrita pouco diz e ao que a história oficial decidiu não contar.
O que não nos contaram
Macapá recorda o tempo em que mãos escravizadas ergueram a Fortaleza de São José e abriram as fundações da cidade. O som do Marabaixo, com seus tambores e ladainhas, é o que restou de um país que tentou esquecer, mas não conseguiu apagar. Belém, antiga porta do comércio colonial, ainda guarda nas paredes da Igreja do Rosário dos Homens Pretos o eco de uma fé que era também política, e nas irmandades negras, o exercício de liberdade quando a cidadania era um privilégio proibido. No Tocantins, onde hoje está Palmas, as antigas rotas de gado e ouro se confundem com os caminhos da fuga e da resistência. As comunidades quilombolas que sobrevivem no estado são os vestígios vivos de um povo que aprendeu a criar território mesmo sem o direito de existir.
Em São Luís, o Tambor de Crioula e o Bumba-Meu-Boi fazem da cultura uma forma de sobrevivência. A cidade fala com o corpo o que os livros não disseram. As contribuições pedagógicas e literárias de Maria Firmina, a trajetória empreendedora de Catarina Mina, e a riqueza cultural de Alcione são exemplos de histórias de mulheres negras maranhenses que foram contadas nesta imersão ancestral.
Já Fortaleza, que foi pioneira na abolição da escravidão, lembra que a liberdade formal não encerra a luta: ela apenas muda de forma. No Ceará, os quilombos continuam vivos, e a abolição é um verbo que precisa ser conjugado todos os dias. Em João Pessoa, a capital paraibana construída sobre o trabalho de homens e mulheres negras, o chão guarda o peso do que sustenta. A presença negra moldou a cidade e formou redes de solidariedade em meio à violência e ao esquecimento.
Em Belo Horizonte, o antigo Curral Del Rei — de população majoritariamente negra — deu lugar à capital planejada para ser branca, europeia, moderna. Mas a história não se apaga: ela resiste nos quilombos urbanos, como o das Mangueiras, que lembram que o progresso sempre teve cor, embora o discurso tenha tentado negá-la. Em Vitória, o congo capixaba, com sua música e religiosidade, é o testemunho da herança banto que construiu igrejas, praças e ruas do centro histórico. O trabalho do povo negro foi o cimento invisível da capital, e os registros de alforria ainda repousam nos arquivos públicos como se aguardassem um reconhecimento tardio.
No Rio de Janeiro, o Cais do Valongo é mais do que um sítio arqueológico: é um espelho voltado para a alma do país. Mais de um milhão de africanos desembarcaram ali, e dali nasceu o que hoje se chama identidade nacional — o jongo, o samba, o comércio de rua, a resistência. Em Curitiba, a Igreja do Rosário dos Pretos, erguida por quem não podia rezar nos templos oficiais, é símbolo de uma história que o sul ainda está aprendendo a enxergar. A trajetória de Enedina Alves Marques, primeira engenheira negra do Paraná, é o retrato da coragem que atravessa o esquecimento.
De norte a sul, a Caminhada Negra AMB 2025 é uma travessia de consciência. Cada cidade é uma lembrança de que o país foi construído por quem raramente foi retratado. Cada passo é uma restituição simbólica de pertencimento. A Justiça, ao caminhar, reconhece que igualdade não é uma concessão institucional, mas uma origem que o Brasil ainda precisa reencontrar. E talvez esse seja o sentido mais profundo do gesto: quando a magistratura caminha, é o próprio país que começa a se mover — não para frente, mas para dentro de si mesmo.




