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Entidades da magistratura, MP e relacionadas ao sistema de Justiça mobilizam-se contra atual reforma da Previdência

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Cerca de 300 magistrados, promotores e profissionais de outras carreiras lotaram o auditório Nereu Ramos, da Câmara dos Deputados, em ato contra a aprovação do texto da atual reforma da Previdência (PEC 287/16) apresentado pelo Poder Executivo. A mobilização, organizada pela Frente Associativa da Magistratura e do Ministério Público (Frentas), foi promovida na tarde desta quarta-feira (15).

O presidente da AMB, Jayme de Oliveira, informou que o objetivo foi “chamar a atenção dos parlamentares de todas as bancadas para a abertura de um debate verdadeiro com a sociedade civil para que tenhamos uma reforma real e verdadeira. E, inclusive, para não precisarmos daqui a dez anos fazer outra, sendo esta já a terceira em um curto espaço de tempo. Esta Casa é uma casa de debate, mas evidentemente tem que ser uma discussão séria, e não uma aparente discussão, como está se desenrolando”.

Outra preocupação para o presidente da entidade é a gestão do sistema previdenciário. “É preciso que seja enfrentada a gestão do sistema, e isso a reforma não está lidando. O discurso de um déficit por si só não se sustenta se não enfrentar a raiz do problema que é a utilização indevida dos recursos da Previdência”, avaliou Jayme de Oliveira.

Em seus discursos, as lideranças presentes reiteraram que não aceitam a atual proposta, solicitando, assim, que o governo dê tempo para que as alterações sejam feitas. “A preocupação das entidades que compõem a Frentas é o aparente grande rolo compressor com a aprovação, tanto que estão dizendo que o projeto vai ser aprovado até o meio do ano nas duas casas, e isso não é debate, não é democracia, não é discussão. Ninguém conhecia o texto até 40 dias atrás”, protestou o presidente do AMB.

A presidente da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp), Norma Cavalcanti, que coordena a Frentas, relatou o trabalho realizado pelas entidades para elaborar um conjunto de emendas que visam garantir direitos e aperfeiçoar o regime atual e que serão entregues aos deputados como sugestões. Entre os envolvidos, Norma destacou a atuação do vice-presidente de Planejamento Estratégico, Previdência e Assuntos Jurídicos da AMB, Nelson Missias. “Nossa expectativa é de que possamos trabalhar com todos os parlamentares. Não há voto perdido. Não somos corporações, somos homens e mulheres de bem que lutamos por um Brasil melhor. Nossas notas técnicas comprovam que a PEC é excludente, prejudicando o trabalhador brasileiro”, disse.

Diálogo aberto com parlamentares

O ato atraiu a participação de mais de dez deputados, que colocaram suas bancadas à disposição para construir uma proposta alternativa. Nelson Peregrino (PT-BA) ressaltou a importância da iniciativa, ao dizer que as entidades presentes estão entre os atores que têm poder de mobilização. “Este ato vem ao encontro da preocupação de muitos parlamentares desta Casa em relação à proposta, que é um retrocesso e profundo ataque a conquistas históricas”. Ele defendeu a necessidade de ocorrer um debate de forma tranquila e democrática, sem atropelos. “Em 24 horas se discutiu a constitucionalidade dessa matéria na CCJ. Há um atropelo total, um açodamento, e quanto mais rápido menor a mobilização e maior a manipulação”, disse.

Para o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), “a magistratura e o MP têm papel fundamental para mudar essa proposta injusta. Não à reforma, parabéns à luta e vamos à vitória”. “Como pode estar quebrada a Previdência se no ano passado a Seguridade Social transferiu para a DRU R$ 120 bilhões? Até 2023, que é o período da DRU, vai tirar R$ 1 trilhão da Seguridade. Como está quebrada, se pode tirar esse dinheiro todo?”, questionou.

O deputado Lucio Vieira Lima (PMDB-BA) ressaltou o mérito das entidades da magistratura e MP iniciarem o diálogo. “Vocês saem na frente querendo o debate. As categorias e corporações têm que apresentar a proposta e cabe a nós parlamentares discutirmos, debatermos e fazer as mudanças necessárias. Que saia desse debate, se não a melhor proposta, a possível boa reforma que contemple em média a sociedade brasileira.”

Segundo Júlio Delgado (PSB-MG), o texto como está não será aprovado. “O que nos tranquiliza é que do jeito que a PEC está não passará. Os colegas parlamentares estão comprometidos com a causa”. O deputado elencou as diversas questões que estão com “aberrações”, como o que se refere ao trabalhador rural, ao tempo de contribuição, entre outros pontos. “A conversa que está sendo iniciada hoje por iniciativa de vocês tem que ser estendida para todo o Brasil.”

Glauber Braga (PSOL-RJ) adiantou que pela sua bancada a proposta não será aprovada, “mas a gente não tem a ilusão de ter os votos suficientes junto com os demais parlamentares para barrá-la se não tiver ampla mobilização da sociedade brasileira”. O deputado comentou a falta de espaço de discussão com a sociedade. “O papel dos senhores é fundamental para que a gente consiga virar este jogo”.

Para Danilo Cabral (PSB-PE), é inadmissível que não se permita que a sociedade participe do debate. “Está muito claro que estão reeditando a prática de ‘tratorar’ o debate aqui dentro do Congresso. E, mais preocupante ainda, impedir a sociedade de participar de tema que diz respeito a todos, indistintamente. Queremos debater e não vamos aceitar na forma que está posta.”

Lincoln Portela (PRB-MG) também reforçou a necessidade de uma discussão mais ampla dentro do Congresso e com a sociedade. De acordo com ele, é essencial avaliar a corrupção dentro da Previdência. “Precisamos avaliar primeiro a corrupção dentro da Previdência. Precisamos trabalhar primeiro de dentro para fora. Segunda questão é tratarmos a questão da DRU, que acaba desviando funções orçamentárias e com isso a Previdência também acaba perdendo.”

Chico Alencar (PSOL-RJ) agradeceu a iniciativa das entidades e ressaltou que a bancada tem sua pequena representação dentro da comissão e está atuando, no entanto sem mobilização não é possível avançar. “Temos uma proposta que é do referendo popular. Ou seja, primeiro a gente está se opondo e depois vamos entrar na linha de redução de danos”, adiantou.

Alice Portugal (PCdoB-BA) agradeceu a oportunidade de falar com as carreiras públicas típicas de estado. “Não estamos tratando apenas de mais uma reforma. É a defenestração das políticas públicas e sociais que garantiam o mínimo de acesso à Justiça social do Brasil. Nós sabemos que o que está acontecendo é o caminho efetivo da desconstrução do estado nacional. Políticas públicas defenestradas e direitos atingidos”, discursou.

O Subtenente Gonzaga (PDT-MG) enfatizou que a magistratura e o MP têm sido parceiros de caminhada. “Ao longo dos últimos dois anos temos estabelecido um processo de construção coletiva bastante interessante. Venho somar a essa posição contrária à reforma da Previdência na sua totalidade. O que nos resta é um posicionamento de enfrentamento e pensarmos coletivamente esse enfrentamento, conseguindo enxergar os efeitos danosos dessa reforma em todos os segmentos.”

O deputado João Daniel (PT-SE) pronunciou-se totalmente contrário à atual proposta. “Temos muita clareza de que a Casa, com a pressão da sociedade, haverá de exigir respeito dos parlamentares para não ferir nossa Constituição e não perder direitos sagrados conquistados pelo povo brasileiro. Estamos junto nesta batalha.”

Participaram também do ato diversos presidentes das associações regionais de magistrados.

 Ana Carolina Lobo

 

 

 

 

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