Associação dos Magistrados Brasileiros
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Aquele juiz de Sergipe se perdeu

Paulo Cesar Cavalcante Macedo

Juiz de Direito

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando passou a assinar as minutas mais simples, feitas pela sua assessoria, sem ler o processo, porque não tinha tempo para isso.

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando trabalhou com vontade chorar, porque não tinha tempo de trabalhar com tranqüilidade.

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando se sentiu ineficiente por estar com sua produtividade abaixo da “média do seu grupo”, sem que ninguém tenha estabelecido qual é a produtividade considerada eficiente para cada grupo. E se esqueceu que o conceito de “média” pressupõe que alguém estará sempre acima e abaixo dela. E que, quando os que estão abaixo a alcançam, a média sobe.

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando trabalhou, mesmo doente, porque não tinha tempo de ir ao médico.

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando esqueceu que, por melhor e mais extraordinário que possa vir a ser o Judiciário Sergipano, haverá sempre produtividades abaixo da média, mesmo que todos os juízes venham a ser maravilhosamente produtivos.

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando esqueceu que “se a casa do meu vizinho está incendiando, minha casa está em perigo”.

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando acreditou, sem analisar, que o CNJ lhe impôs uma meta, mesmo ninguém tendo estabelecido uma quantidade de sentenças a prolatar e de audiências a fazer. (Porque se lhe dessem uma meta numericamente estabelecida e humanamente alcançável, ele a atingiria. E aí ficaria claro que o problema é excesso de demanda e não ineficiência do juiz).

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando aceitou a mentira de que as “metas PARA O PODER JUDICIÁRIO” são a mesma coisa que as “obrigações mínimas PARA O JUIZ”.

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando trabalhou na sala de espera do consultório médico, onde foi parar por excesso de trabalho.

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando esqueceu que as metas do CNJ revelam a obrigação ESTATAL de prestar a jurisdição de forma eficaz, o que depende, entre outras coisas, de criação de estrutura pelo próprio Estado.

Aquele juiz de Sergipe se perdeu quando aceitou ter seu trabalho avaliado não pelo que ele faz, mas pelo que não consegue fazer.

Aquele juiz de Sergipe se perdeu, principalmente, quando achou que estava sozinho e que as coisas não poderiam ser diferentes.

Mas há sempre um caminho de volta.

Há sempre um jeito para “aquele juiz” se encontrar.

E precisamos conversar com “ele”.

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